Blog

CRIANDO CENÁRIOS

CRIANDO CENÁRIOS

É neles que as pessoas "encenam" seus múltiplos personagens, onde a vida imita a arte.

Inicialmente falávamos sobre cenários no teatro, que, como manifestação literária nasceu na Grécia, provavelmente no século VI a.C.. Dedicava-se à tragédia, que era a história de um herói que ousava desafiar os deuses. Por sua ousadia o herói acabava por ganhar duas coisas: uma punição e um aprendizado. Se, por um lado, ele sofria, por outro, se desenvolvia. A tragédia é a metáfora da vida.

O lugar onde as tragédias eram representadas passou a chamar-se théatron, que significa “lugar aonde se vai para ver”, e este se compunha, grosso modo, pela platéia, o espaço reservado aos espectadores e pelo palco, o local onde os atores representavam. O palco, por sua vez, recebia o cenário, o conjunto de elementos cuja finalidade era criar o ambiente que facilitaria a representação. O cenário é o universo onde os atores “vivem”.

Portanto, desde a época de Sófocles e Ésquilo, cenário é o nome que se dá ao espaço principal onde atores representam (encenam) uma peça. Ainda hoje usamos essa terminologia para o teatro, mas há uma novidade: passamos a usar essas palavras também na vida real. Cenários são, na visão ampliada, os espaços onde as pessoas “encenam” seus personagens de verdade, que, aliás, costumam ser múltiplos e variados. É a vida imitando a arte.

A expressão “criar um novo cenário” foi adotada por vários setores, e é utilizado para designar um conjunto de fatores que interferem na vida humana. Falamos em cenário político, cenário econômico, cenário esportivo e assim por diante, sempre para designar, não um local físico, mas uma situação muito mais complexa.

Na vida de cada um de nós, a expressão também pode ser aplicada, se percebermos que estamos todos, de certa forma, representando algum papel, seja no trabalho, na família, nas relações humanas, na sociedade em geral. Mas afinal, qual nossa parcela de responsabilidade na criação de tais cenários? Vejamos.

Somos cenógrafos?

Abusando da metáfora do teatro, podemos dividir as pessoas em pelo menos três categorias: os espectadores, os atores e os cenógrafos. Os espectadores apenas assistem, olham para a vida como se ela não lhes pertencesse, e eles tivessem apenas a capacidade de apreciá-la, sem, entretanto, tocá-la.

Os atores interpretam as cenas da vida. Produzem diálogos, emoção, reflexão. Também fabricam coisas, resolvem problemas, atingem objetivos, são competitivos, ganham dinheiro, mas precisam ser estimulados e orientados. Dependem de que alguém lhes dê espaço. E os cenógrafos? Bem estes são os que preparam o palco para os atores atuarem e os espectadores apreciarem. Os dois primeiros dependem deles, seguem suas idéias e sua maneira de ver o mundo. O cenógrafo representa o empreendedor, o verdadeiro responsável pelas mudanças que o mundo experimenta, pelos movimentos humanos, pelo desenvolvimento e pela evolução.

Na vida real, o bom sentido de criar um cenário é inovar em busca do irrealizado, sonhar o impossível e transformar o sonho em uma possibilidade. Significa namorar a perfeição, ainda que arriscando-se ao ciúmes da mediocridade circundante. O mundo evolui aos saltos, que são propostos, realizados e tornados comuns pelos cenógrafos da vida, esses irrecuperáveis sonhadores e irresponsáveis agitadores. Em todas as áreas encontramos cenógrafos. Nas ciências, na economia, na política e, claro, nas artes.

Sonho realizado

O diretor de cinema alemão Werner Herzog é um desses homens que não se contentam com cenários prontos. Trata de construir os seus, às vezes contrariando a lógica, pelo menos a lógica vigente. Em 1982 produziu e dirigiu um filme improvável como o próprio enredo: Fitzcarraldo.

Filmado inteiramente na Amazônia brasileira, Fitzcarraldo conta a história de um visionário irlandês que viveu na região no final do século XIX, em pleno apogeu do ciclo da borracha. Montou uma fábrica de gelo, era amante da dona do bordel local, Molly, circulava entre os barões da borracha e tinha um sonho: construir um teatro de ópera em plena selva, onde o tenor italiano Enrico Caruso, a grande sensação do Bel Canto da época, pudesse se apresentar. Simples assim. Coisa pouca…

Fitzcarraldo compra um barco a vapor, contrata a tripulação e viaja rio acima, em direção ao Peru, buscando o local ideal para a realização de seu excêntrico sonho. No meio da viagem, entre outras dificuldades, se depara com um grande perigo e um imenso obstáculo. O perigo era uma tribo de índios até então isolados e aparentemente hostis, e o obstáculo era um trecho de terra acidentada que separava o rio em que estava do rio pelo qual desejava continuar navegando.

Fitzcarraldo realiza, então, o impossível. Consegue a ajuda dos índios para empurrar o barco de 160 toneladas morro acima, para chegar ao outro lado e continuar a viagem em direção ao seu destino. E faz isso ao som de óperas de Caruso tocadas em um velho gramofone, criando um ambiente surrealista, mas cheio de energia criativa.

A história de Fitzcarraldo é uma metáfora do empreendedorismo, a condição humana de produzir novos cenários, e é também o desnudamento do espírito do diretor alemão. O barco arrastado pela montanha, com a utilização de um rudimentar sistema de roldanas não é uma maquete, e sim um barco de verdade. Herzog fez, na vida real, o que Fitzcarraldo fez no filme.

Esforço consciente

Em meados da última década do século passado, um grupo de ex-alunos da Universidade de Harvard percebeu que, para grandes parcelas da humanidade, a vida tinha reservado apenas montanhas a serem transpostas. Eles haviam visitado países que são comumente chamados de “mercados emergentes”, na América Latina, na África e parte da Europa, locais onde sobra trabalho, mas faltam empregos. Tudo está para ser feito, porém, sem capacitação, as pessoas não conseguem se organizar, trabalhar e mudar sua realidade.

Fundaram então, em 1997, o Instituto Endeavor, com a finalidade de apoiar as pessoas na criação de novos cenários de progresso e bem estar. A partir do ano 2000, o instituto também funciona no Brasil (saiba mais em www.endeavor.org.br ). A palavra “endeavor” deriva do francês clássico, e quer dizer algo como “esforço consciente em direção a um objetivo”. Opa, duas coisas que combinam como queijo e goiabada: um objetivo bem definido e o esforço estruturado para que o mesmo seja atingido. Será que não é exatamente isso que as pessoas precisam para realizar seus sonhos? Não estaria nessa dupla dinâmica o segredo para a criação de cenários mais justos e mais belos?

Kant dizia que o homem é movido por três forças: o desejo, a vontade e o arbítrio. Os desejos são orgânicos, fisiológicos, não dependem da lógica. Já as vontades podem ser definidas como desejos especiais, dependentes do pensamento humano. E o arbítrio, esse atributo divino, é o poder que todos temos, e que nos permite decidir se atenderemos ou não às demandas dos desejos e das vontades.

Pelo uso da vontade e do arbítrio, podemos escolher entre o determinismo, e apenas aceitar a influencia do meio em que vivemos, ou o possibilismo, e mudar esse meio para melhor. Sim, o homem é fruto do meio, mas o meio também é fruto do homem. É uma questão de opção – atuar no cenário pré-definido, ou construir um novo cenário.

Em geral, a segunda opção é o caminho mais difícil e, invariavelmente será criticado por todos. Todos que, ironicamente, constituirão a platéia que depois aplaudirá o resultado final. De pé!

Criar novos cenários, na prática significa estar insatisfeito com a situação vigente e então organizar esforços para mudar, propondo um novo modelo, dotado de novos elementos, capazes de promover o que a todos nós interessa: a felicidade. É claro que um novo cenário não se cria do nada, instantaneamente. Depende de tempo, de organização e de esforço. Assim como o cenário do teatro tem elementos (coxias, urdinagem, refletores, adereços), os cenários da vida também têm. Eles costumam ser vários, mas há os principais. Veja abaixo alguns exemplos de criação de novos cenários e seus elementos.

– Consciência: Zé Pescador é o apelido de um pescador da ilha de Itaparica. Sempre foi predador, matando peixes com dinamite, até que sua filha de seis anos lhe fez ver que a estava agredindo ao agredir a natureza. Mudou os métodos e abriu uma ONG de educação e preservação ambiental.
– Atitude: Dada, empregada domestica e cozinheira maravilhosa, era humilhada pela patroa e sofria com o marido. Livrou-se de ambos e abriu um pequeno restaurante. Hoje é proprietária das melhores casas de comida baiana de Salvador.
– Inovação: Em um dos países mais pobres do mundo – Bangladesh – o economista Mohammed Yunus criou um Banco para financiar pequenas iniciativas de produção. Mudou a vida de milhões de pessoas e praticamente viabilizou aquele país.
– Trabalho: Raul Randon era um mecânico que concertava os freios dos caminhões importados que desciam a serra gaúcha na década de 1950. Criou alternativas para trocar o sistema de freios não adaptados àquelas condições. Hoje dirige 6.600 funcionários em seis empresas que atendem a todo o setor automotivo.
– Inconformismo: Este colunista começou como professor e montou seu próprio colégio, depois foi médico e implantou o primeiro laboratório de fisiologia do exercício e, finalmente, criou seu último cenário, virando escritor e consultor de comportamento organizacional.

Como disse o filósofo espanhol Ortega y Gasset:”O homem é o homem e sua circunstância”. É verdade, pois estamos profundamente integrados ao cenário em que atuamos – ou que criamos.

Texto publicado sob licença da revista Vida Simples, Editora Abril.
Todos os direitos reservados.

Visite o site da revista:www.revistavidasimples.com.br

Voltar